O poder da generosidade no olhar da ciência
O poder da generosidade
Rachel Costa
Livro de professor da Universidade de
Harvard revoluciona a teoria da seleção natural de Darwin ao mostrar que
o grupo pode alcançar muito mais sucesso quando atua de forma coletiva e
em benefício dos outros.
Segundo Edward Wilson, da Universidade de Harvard, considerado o pai da
sociobiologia, ganhador de dois prêmios Pulitzer na categoria de não
ficção e um dos mais respeitados acadêmicos da atualidade, o processo
evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos
colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Assim, grupos de
pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefício dos outros
e de forma coletiva alcançam mais sucesso, segundo o americano.
A nova teoria da evolução de Wilson arrebatou não só a comunidade científica
como as mais importantes publicações internacionais. Os jornais “The
New York Times”, “The Wall Street Journal” e “The Washington Post” e as
revistas “Newsweek” e “New Yorker” são apenas algumas das publicações
que dedicaram páginas e páginas à chegada da nova obra às prateleiras –
sem contar as prestigiadas revistas científicas “Nature” e “Scientific
American”. O trabalho do acadêmico de Harvard foi baseado nas espécies
sociais, tais quais vários tipos de abelhas, formigas e nós, humanos. As
espécies sociais são 3% do total dos animais do planeta, mas
representam 50% de sua biomassa. Para Wilson, só esse dado já seria
suficiente para explicar o sucesso desses grupos e constatar que a
colaboração entre os indivíduos conta pontos positivos na evolução. Algo
semelhante já havia sido observado pelo próprio Darwin no livro “A
Evolução das Espécies”. Tentando explicar o altruísmo, o naturalista
britânico percebeu que, se esse comportamento aparentemente não oferecia
vantagem direta para o indivíduo, parecia ser capaz de garantir um
benefício ao grupo. Porém ainda não era claro por que ser altruísta se o
egoísmo parecia mais benéfico. “Os animais não precisam competir
sempre”, disse à ISTOÉ o professor de antropologia da Universidade de
Washington Robert Sussman, autor do livro “Origens da Cooperação e do
Altruísmo” (2009). “Quando a cooperação representa uma vantagem para o
grupo, os genes que a promovem são lançados à próxima geração,
favorecendo esse grupo em relação aos outros”, afirmou Wilson em uma
entrevista ao ensaísta científico Carl Zimmer. “Assim, a seleção ocorre
no nível do grupo, embora não deixe de acontecer no nível individual.”
“A Conquista Social da Terra” surgiu para se fazer repensar a
importância da cooperação, em especial entre os seres humanos. Afinal,
se o sacrifício por um parente para a proteção dos genes, propalado pela
seleção por parentesco, faz sentido em comunidades de abelhas e de
formigas, falta-lhe complexidade para abarcar o ser humano, muitas vezes
capaz de se sacrificar por razões bem mais subjetivas, como crenças e
ideais. “Nos seres humanos há três aspectos que devem ser levados em
conta para explicar a evolução: o corpo físico, os pensamentos e a
psique”, afirma Robert Cloninger. “Darwin foca seu trabalho na evolução
do corpo, por isso a explicação fica incompleta.” Por ter consciência, a
pessoa é capaz de julgar se irá agir a favor ou contra o outro,
podendo, inclusive, basear essa decisão em atos que esse mesmo sujeito
praticou no passado. Alguém que sempre age de modo egoísta, por exemplo,
pode ser rejeitado pelo restante do grupo. “As manifestações de
generosidade nos seres humanos são diferentes e mais variadas que as
observadas em outros animais”, disse à ISTOÉ o biólogo Michael Wade, que
pesquisa evolução e comportamento na Universidade de Indiana, nos
Estados Unidos. Wade publicou, no fim de abril, um estudo mostrando que,
embora o altruísmo esteja presente em várias espécies, o mecanismo pelo
qual ele se dá varia. “Existem diferentes tipos de altruísmo, para
diferentes ambientes. É o ambiente que determina como ajudar seu
vizinho.”
Na neurociência, por exemplo, especialistas tentam identificar os
mecanismo cerebrais acionados quando se é generoso. “Seres humanos são
capazes de se sacrificar por um desconhecido completo ou por um ideal.
Isso não é visto em outras espécies”, afirma o neurocientista brasileiro
Jorge Moll, do instituto D’Or, no Rio de Janeiro. O pesquisador é
conhecido no meio acadêmico por seus estudos sobre a resposta cerebral
às ações altruístas. Ele e sua equipe mostraram, por meio de exames de
ressonância magnética, que ao se praticar ações altruístas são acionadas
as mesmas áreas do cérebro ligadas à recompensa. Como se, ao se doar
dinheiro, por exemplo, a sensação percebida fosse a mesma de quando se
ganha dinheiro. “Para o cérebro, o que temos é um sentimento de
recompensa, assim vale perder para ajudar o outro.” As amigas Flávia
Constant, Paula Saldanha e Letícia Verona decidiram se unir e agir por
pessoas que elas não conheciam diante da tragédia que matou mais de 900
pessoas na região serrana do Rio de Janeiro. Elas não moravam no local
nem perderam amigos ou parentes, mas, imbuídas de altruísmo, arregaçaram
as mangas e financiaram a construção de quatro casas no distrito de
Vieira, em Teresópolis, porque acharam que não podiam ficar alheias à
catástrofe. “Não tinha como não ajudar”, diz Letícia.
Existem diferentes tipos de altruísmo, para diferentes ambientes. É o ambiente que determina como ajudar seu vizinho.”
N° Edição: 2218
| 11.Mai.12 - 21:00
| Atualizado em 07.Set.13 - 11:50
fonte:http://www.istoe.com.br/reportagens/205685_O+PODER+DA+GENEROSIDADE
Maneiro o/
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